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Viagens Missionárias
Viagens Missionárias

DO OIAPOQUE ÀS ÁGUAS DA FOZ DO AMAZONAS

 

 

 

Atendendo convite da Irmã Rebeca, que pertence à congregação Irmãs de Notre Dame, ela, que trabalha com indígenas em aldeias no Oiapoque (AP), e do padre Enock (PIME), missionário em algumas ilhas do Arquipélago de Marajó, fomos em missão, por 30 dias naquela linda região brasileira, que compreende o norte do Amapá, na divisa com Guiana Francesa e em seguida, em comunidades ribeirinhas nas ilhas da foz do Rio Amazonas.

 

Padre Raymundo (Cônego Lateranense) que habita em Pirapora do Bom Jesus (SP) na comunidade Cajula e eu, Luiz Catapan, leigo, assessor do Centro Bíblico Verbo, aceitamos o desafio, num tempo de pandemia do coronavírus.

 

No dia 01 de fevereiro de 2021, dia de nossa viagem para Macapá, acordei com uma informação de que um grande amigo, liderança indígena da etnia Baniwa – Isaias Pereira Fontes – acabara de ser vencido pela covid. Ele era diretor da FOIRN – Federação das Organizações Indígenas do Alto Rio Negro. Irreparável perda, pela atividade e bem que ele fazia naquela região do norte do Amazonas.

 

Viajamos de São Paulo para Macapá, com escala em Belém. No nosso tempo de escala, encontramos a Rute, missionária leiga que trabalhou por seis anos no Oiapoque, na Missão de Fronteira, formando comunidade com a irmã Rebeca e, nos últimos três anos com uma jovem paraense chamada Leidilene, conhecida como Dan. Dan retornou para a casa de seus pais a fim de continuar os estudos e Rute está a iniciar uma nova atividade missionária em Tucumã (PA). Lá ela necessita de apoio, pessoas dispostas a estar presente na missão, mesmo que por poucos dias. Atividades não faltam. (ficamos de ajudá-la, até na indicação de pessoas interessadas em trabalhar na missão).

 

Chegamos em Macapá debaixo de uma forte chuva e fomos acolhidos na casa dos padres verbitas, onde eles trabalham em uma paróquia. (padre Lucas – polonês – nos acolheu). Nosso transporte estava sob os cuidados do padre Hazer – verbita filipino – que é o pároco em Oiapoque.

 

Dia 02 saímos em direção a Oiapoque. Aproximadamente 600 kms, sendo 450 kms asfaltados e 150 terra (lama e atoleiros devido à época chuvosos).

 

No meio do caminho almoçamos na casa do padre Jacob que participa num projeto de igreja-irmã.  Ele é gaúcho, se não me engano de Caxias do Sul. Com ele já fizemos a primeira proposta de trabalho bíblico na sua paróquia, localizada num município pequeno, mas com potencial para expandirmos a leitura da bíblia.

 

No município de Tartaruguinho apanhamos Nazaré, casada com Eduardo, que já morou e trabalhou na paróquia verbita de Oiapoque. Ela foi conosco para dar um apoio na preparação de alimentos e demais tarefas, durante nossa permanência com as lideranças indígenas no Oiapoque. Nazaré é uma pessoa muito experiente nos trabalhos pastorais.  Creio que poderia ser comparada com as lideranças das primeiras comunidades cristãs.

 

Chegamos ao final da tarde na casa dos verbitas em Oiapoque, e conhecemos os outros dois padres que ali habitam: padre Gregório – da Indonésia, e padre Agostinho - de Togo.  Padre Gregório é quem trabalha com os indígenas, em companhia da irmã Rebeca. Passam de 10 a 15 dias visitando as aldeias, utilizando uma “voadeira” – pequena embarcação que percorre rios e igarapés. As aldeias mais distantes ficam a uma distância de oito horas, a partir de Oiapoque. Conhecemos, também os dois cães que guardam a casa dos padres: Diocesano e Verbita.

 

No dia 03 de fevereiro, tiramos para dar um giro pela cidade, conhecer um pouco o ambiente e conversar com a irmã Rebeca sobre nosso encontro com as lideranças indígenas, que aconteceu de 04 a 10 de fevereiro.  O grupo foi de aproximadamente 20 pessoas que vieram das aldeias, todas já vacinadas contra o coronavírus. Todas ficaram hospedadas num local chamado Montanha, próprio para encontros.  A casa se chama “Casa Madre Tereza de Calcutá”.

 

Qual o assunto que tratamos?

 

A principal angústia nas comunidades indígenas é a grande proliferação de igrejas pentecostais e neopentecostais. O trabalho massivo dos que se dizem pastores tem trazido muitas incertezas ao povo. Estas incertezas e confusões tem colaborado muito para a destruição da cultura indígena, além de trazer uma exploração monetária, tirando deles aquilo que já é tão pouco numa região pobre.

 

Nos primeiros dias de encontro, e como não poderia deixar de ser, fomos sempre ouvintes: deixamos que eles falassem, se apresentassem, nominassem as comunidades, aldeias e etnias. Ouvimos alguns absurdos narrados por eles como aquilo que acontece em algumas igrejas (Barca de Jesus, por exemplo), onde os pastores ficam reclusos com seus fiéis, na igreja fechada, por 3 ou 4 dias e ali acontece de tudo: sabe-se caso de estupro, gravidez precoce, acerto de casamento entre crianças etc. Interessante é que o pastor é da própria comunidade e não alguém que vem de fora. Muitas pessoas sofrem ameaças constantes. Tem gente que até perde o melhor período de plantio de seus roçados por conta das atividades com o pastor. Sem contar que tanto o Pajé, como pinturas no corpo são coisas do demônio. O que nas igrejas são ensinados confunde muito a vida das pessoas. Até uma vestimenta mais adequada era necessária para frequentar a igreja, muitas vezes dispendiosa para as famílias.      

 

Havia representantes das comunidades Kumarumã, Igarapé da Onça, Aldeia do Manga, Tipidon, Santa Isabel, Espírito Santo e Jondefe.

 

Nossa conclusão e talvez, orientação, ao final dos depoimentos foi no sentido de que não se iludam, não se deixem enganar, sigam a igreja que desejarem, mas nunca se afastem dos ensinamentos do evangelho. Aliás, percebemos que, os que se mantém fiel na igreja católica, valorizam muito a reza do terço. Mas nos disseram que os católicos são muito desinformados da própria religião e valorizam pouco as crianças. Uma liderança, chamada Rosiclein (pedagoga e com pós-graduação) vê a necessidade urgente de se investir nas crianças.

 

Registramos aqui, com muita preocupação, que muitas pessoas que mudaram de religião e passaram a seguir o neopentecostalíssimo duvidam da vacina contra o covid-19. Recusam a vacinação, já que o pastor orientou da possibilidade de se implantar um chip, através da vacina, com o código satânico 666.

 

Muitas vezes eles têm dificuldade na comunicação oral, pois a língua falada é uma mistura de francês com português e algumas derivações locais que formam uma língua chamada crioula. Incentivamos à irmã Rebeca, que já convive com eles há 40 anos, aproximadamente, que se dedique na tradução do evengelho para a língua falada por eles, o que facilitaria muito os trabalhos de evangelização.

 

Estavam sendo representados povos de várias etnias: Karipuna, Galibi Marono, Palikur, Kalinã, Saramaka e outros mais. Fica registrado aqui que contamos com a presença de um cacique – Sr. Amarildo - que inclusive esteve presente no Sínodo para a Amazônia, em outubro de 2019, em Roma.

 

Ouvimos como se efetua o plantio da maniva (mandioca). A convite do que vai preparar a roça, todos os vizinhos são convidados a colaborar nos trabalhos, o que será retribuído quando a necessidade é do outro para alguma atividade. A família anfitriã fornece comida, cachiri e fumo. Todos se alimentam e depois trabalham. Os mais idosos cortam a maniva, os jovens transportam e cavam, as mulheres colocam na vala e junto com as mais jovens, arrumam, cobrindo com a terra (simbolizando a fecundidade).  Ninguém se cansa e todos se divertem, fumam, bebem, praticam tiro ao alvo, crianças jogam bola.

 

Estão preocupados porque as crianças se apegam muito a celulares e se divertem com jogos violentos, como são comuns nos aparelhos. Muitos não desejam mais se tornarem caciques. O cacique muitas vezes é desvalorizado até pelos pais de alguns jovens protagonistas de pequenas infrações. Assim, os caciques são desvalorizados. É um problema.

 

Sempre buscando a participação e constante checagem do entendimento, (quando não nos fazíamos entender, a irmã Rebeca falava na língua nativa deles para facilitar), fizemos um trabalho, apresentando a eles, numa linha do tempo, desde o Gênesis até as primeiras comunidades cristãs. Alguns conceitos ou histórias bíblicas trazem muitas dúvidas a eles quanto à ligação com a realidade, se existiram mesmo, como foi, etc....

 

Então, com muita calma, passamos alguns conceitos de que, aquilo que está narrado na bíblia tem sentido se entendermos um pouco  a época quando foi escrito, quais os objetivos e para quem foi escrito. E, obviamente, entendermos o texto para não criarmos pretesto para manipular o texto bíblico.

 

Muito brevemente, considerando o tempo que tínhamos com eles, falamos dos patriarcas, êxodo, formação do povo de Israel, monarquia, exílio e teocracia. Algumas palavras para alguns foram de inteira novidade. Mas nosso objetivo era mostrar os dois Javés tratados nos escritos bíblicos:  um era o Javé do poder, da hierarquia, lembrado até por Ezequiel durante o exílio e o outro Javé, o Deus dos pobres, da sociedade tribal, que defendia os oprimidos. E Jesus de Nazaré, no lugar onde ele viveu, fez uma opção de vida que foi falar do Deus dos pobres, na defesa dos injustiçados. Esta atitude causou desconforto junto aos sacerdotes do templo, escribas e fariseus.

 

Esta opção feita por Jesus de Nazaré fez com que ele fosse perseguido, condenado e assassinado. Este entendimento sobre a morte de Jesus para muitos foi, de fato, uma grande novidade e creio que fez com que tivessem oportunidade de bons momentos de reflexão, quando do retorno para suas comunidades.

 

Entramos na vida de Jesus de Nazaré, firmamos um diálogo mais próximo com o evangelho de Marcos. Falamos sobre o Reino de Deus, um conceito para eles difícil, já que Reino para eles significa sociedade ou comunidade. Respeitamos o entendimento, mostrando o quanto eles estão certos na interpretação.

 

Quando falamos de perdão, eles nos lembraram que celebram o rito de perdão na própria comunidade, ocasião em que as pessoas se perdoam. Aquele que ofendeu, se dirige ao ofendido e, após se ajoelhar diante dele, pede perdão e se desculpam. Até o cacique, em frente às pessoas da comunidade, pede perdão por tudo que possa ter feito que não deu certo ou desagradou alguém da comunidade. Eles celebram o rito do perdão na semana santa, mais específico, no sábado, quando todos vão à beira do rio e lá ficam até umas oito horas da noite, quando toca um sino chamando a todos.

 

As cores têm um forte simbolismo para eles: o verde lembra a natureza; vermelho é o urucum e o branco significa união.

 

De um modo geral eles têm consciência de que são perseguidos pelos poderosos agropecuaristas e mineradores e querem destruí-los. Não é verdade quando a sociedade e a mídia falam de índios querendo plantar soja ou favoráveis à mineração, pecuária...Mentira.

 

Recebemos algumas gravações de incentivo aos indígenas, por parte de pessoas, como: Luís Dietrich, Maria Antônia, Gisele Canário e Inês Catapan ligadas ao Centro Bíblico Verbo e o Cônego Lateranense padre Fábio, atualmente fazendo mestrado em Roma.

 

E já tentando resumir nossa estadia com os indígenas, ouvimos ainda depoimentos em que lamentam o fato de os jovens já não mais querer dançar as danças dos pajés, mas só das igrejas neopentecostais. Estão, assim, se afastando das suas raízes, passam a viver na dependência daquilo que a cidade oferece de mais atrativo. E como consequência, perdem sua identidade, deixando de lado a vida em família, lazer, roçado....   para o evangélico, a mais importante maneira de se gastar o tempo é estar dentro da igreja.

 

São explorados desde os anos 1500 quando tiveram as terras invadidas, e hoje são explorados pela mineração, corte de madeireira, consumismo e destruição do meio ambiente.

 

Conforme o Dietrich deixou no recado, “não é a bíblia que salva, nem religião, nem igreja, mas sim a prática do amor”, bela mensagem que levaram para suas casas.

 

Importante aqui frisar que toda nossa reflexão bíblica sempre foi alicerçada na nossa realidade brasileira, para os dias de hoje. Sempre estudando tema bíblico, porém tentando entender o que aquilo quer dizer para nós, hoje. Não fizemos um estudo teórico, pois não era nossa intenção, nem nunca foi. Mas sempre complementando com uma análise conjuntural daquilo que está acontecendo no nosso País, uma política de destruição de direitos trabalhistas, sociais, na educação, saúde, patrimonial dos bens públicos.

 

Hoje somos governados por um grupo de pessoas que defendem única e exclusivamente os interesses capitalistas. Muitas vezes, nossos irmãos que recebem poucos canais televisivos, ficam reféns de notícias direcionadas para momento de se votar. E assim continuam aumentando o grande abismo entre ricos e pobres neste nosso Brasil....

 

 

SEGUNDA PARTE – ILHAS DO MARAJO

 

Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes. Um barco de uns 12 metros de comprimento, com capacidade para cinco ou seis pessoas num certo conforto, tendo como pároco, padre Enock – PIME – há sete anos no Brasil. Veio de Camarões e sempre trabalhou nas ilhas.

 

Dissemos “certo conforto” porque algo mais deveria ser acrescentado ao barco, como um rádio comunicador para um eventual sinistro e ainda algumas placas solares para melhorar a iluminação interna, possibilitando o uso de um computador durante as viagens e uma pequena geladeira para armazenar frutas e alimentos, tão necessários.

 

Seu território paroquial é composto por 150 ilhas no arquipélago. Ali existem 110 comunidades que são visitadas uma vez a cada semestre. Recebe a ajuda de um diácono permanente, que o acompanha, de vez em quando. No semestre, para percorrer as ilhas, faz aproximadamente 10 viagens, numa duração de 15 dias cada uma.

 

Fizemos a experiência de cruzar os canais da foz do Amazonas. A quantidade de água naquele lugar é inimaginável. O delta do Tocantins se confunde com as águas do delta do Amazonas. A largura total é tamanha a ponto de não se enxergar a outra margem, até porque muitas ilhas interrompem a visão. E a profundidade, de acordo com o aparelho que mede a profundidade do rio – SONAR – acusou até 62 metros, por onde passamos.

 

A maresia também é outro perigo, já que o barco balança muito, a ponto de nos amedrontar e a visibilidade cai drasticamente. Então não se aconselha a enfrentar tal tempo. Pegamos uma, enquanto já estávamos no meio da travessia.

 

No dia 13 de fevereiro visitamos a primeira comunidade. Partimos logo às 3,30 horas da manhã, pois o tempo era de aproximadamente 06 horas de navegação. Padre Enock pensou em tudo no quite viagem: rede, cobertor, pasta e escova de dentes, toalhas, sabonetes além de alimentos.

 

Tivemos a companhia de Rose, uma jovem de 27 anos, coordenadora da Pastoral da Juventude da paróquia. Ela habita em uma das ilhas.

 

Visitamos ilhas que pertencem a três municípios do estado do Pará: Afuáh, Curupá e Breves. Não chegamos a visitar nenhum núcleo urbano, pois são muito distantes, muitas horas de navegação. Ficamos somente nas ilhas.

 

A economia da região é baseada na colheita e comercialização do açaí, que hoje é vendido entre R$ 220,00 a R$ 240,00 a saca de 60 quilos, retirada na porta do produtor. Em Belém, para onde é levado, pode ser negociado a R$ 400,00 a saca. A planta se desenvolve em 3 anos já começando a produzir e cada cacho produz de 10 a 12 quilos.

 

A colheita do açaí é uma atividade familiar, ou seja, quase todos participam. Conversamos com adolescentes que sobem no pé de açaí. É uma atividade perigosa, pois muitos sofrem acidente, caindo lá de cima. E a colheita significa subir e descer muitas vezes durante o dia, até umas 50 vezes, e com um facão na cintura para proceder o corte.

 

Outra atividade, praticada na maioria das vezes por mulheres, é a coleta de andiroba e pracaxi, frutos que caem e ficam boiando nas águas do rio. São recolhidos, colocados para secagem e, de tempos em tempos a Natura (Natura Cosméticos S.A. – empresa produtora de cosméticos) passa e adquire estes produtos já secos. Pagam uma mixaria em torno de R$ 2,00 por quilo.

 

Os moradores das ilhas são mais ligados a Sant’Ana e Macapá, no Estado do Amapá, embora elas pertençam ao estado do Pará.  Belém fica a 12 horas de Barco, mais ou menos.

 

Os setores que formam a paróquia recebem nomes de aves de nossa flora: Patativa, Saracura, Sabiá, Bem-te-vi, Canário, Tico-Tico, Tucano.....  e por aí vai. Uma maravilha.   

 

Os temas bíblicos desenvolvidos nas comunidades foram similares aos trabalhados com os indígenas no Oiapoque, ou seja: numa linha do tempo trabalhamos conceitos bíblicos que nos levaram ao estudo de algumas perícopes do evangelho de Marcos, e com o objetivo de mostrarmos que Jesus de Nazaré morreu por conta de sua opção de vida em favor dos mais pobres.  Relembramos que muitas vezes a nossa opção também pode acarretar perseguições, como aliás conhecemos vários casos de pessoas martirizadas, que foram perseguidas até a morte por conta de seus trabalhos em luta por uma justiça social e partilha.

 

Padre Enock, ao término de cada atividade diária, não se cansava de incentivar a todos na continuidade dos estudos bíblicos, na manutenção das comunidades, bem como valorizava muito a participação da juventude. Em um ou dois dias de estudos, conforme o tamanho do grupo reunido, além de um tempo dedicado à formação, havia o momento para sacramentos (celebração da eucaristia e, quase sempre, com batismos, primeira comunhão e até casamento).

 

Algum tempo ainda era dedicado a visita a doentes ou pessoas idosas, ou em algum caso de problemas em família, ou simplesmente visita de cortesia. No final da tarde, partida para outra comunidade.

 

De modo geral, nas avaliações, sempre foi colocado a grande necessidade que eles têm de formação. Desejam continuidade e que novos temas sejam abordados. Agora imaginemos o detalhe: em 18 dias visitamos 11 comunidades. A paróquia possui 110 comunidades. Numa próxima viagem, faremos comunidades novas ou repetiremos a visita nas já passadas neste mês de fevereiro/2021?

 

As necessidades são muitas e as despesas com o barco (óleo, manutenção, piloto etc...) são pesadas. Notamos que as coletas são insignificantes, se considerarmos que a produção de açaí traz boas renda para a população. Isto é cultural, uma vez que o padre antecessor, não incentivava o comprometimento e participação comunitária nas despesas, já que era subsidiado pela congregação do Pime e/ou benfeitores que vivem na Itália. Padre Ray sugeriu que cada família produtora de açaí sinalizasse duas árvores, e que toda a produção destas árvores seja direcionada para a continuidade da missão, pois tudo é muito caro. Em várias comunidades, notamos o comprometimento com o dízimo proposto.

 

Como em toda parte, existe lá também locais mais difíceis para se trabalhar. Ficamos sabendo que a ilha Charapucu, localizada no município de Afuáh, é uma região muito pobre. O povo de lá tem um procedimento diferente das demais ilhas, ou seja, em vez de colher o açaí como fruta e vender a granel, eles preferem cortar a árvore e vendê-la na forma de palmito. Assim a produção é tremendamente desvalorizada. Quando a secretaria de educação quer dar um castigo a um professor, manda lecionar em Charapucu.

 

Lembrando que aqui também, todo nosso estudo bíblico sempre foi trazido para os dias de hoje, ou seja, qual a lição que aquela situação bíblica nos ensina no dia a dia?  Assim nossa atividade era caracterizada por um estudo de fé e política. Conforme as angústias dos participantes virava para mais política que fé, mas tudo dentro de um contexto religioso.  Muitas vezes tínhamos a necessidade de falar claramente aquilo que está acontecendo hoje em nosso país, já que as informações chegam apenas através de canais de televisão que defendem interesses de uma classe dominante.

 

Diferentemente de outros lugares da Amazônia já visitados, as famílias que habitam estas ilhas, 90% delas ou mais, possuem energia elétrica nas suas casas.  Em programas de governos federais anteriores, de 2003 a 2015, criou-se o programa “Luz para todos”. As comunidades/famílias receberam gratuitamente o motor diesel, e em contrapartida, a comunidade estendeu a fiação elétrica e se responsabiliza pela compra do combustível. Assim, todos passaram a usufruir da energia elétrica.

 

Com o tempo, lá também chegou a energia fotovoltaica, ou seja, conforme o número de pessoas que habitam uma casa, são instaladas placas solares que captam energia e a acumulam em baterias, para utilização durante o dia e também à noite.  Esta compra é responsabilidade de cada cliente e apuramos que, numa família média (cinco pessoas) gasta-se por volta de R$ 15.000,00 para esta instalação.

 

Assim, as casas possuem TV, geladeira, freezer, internet, processador de açaí, e outros eletrodomésticos necessários, de modo que a qualidade de vida da população não é ruim. Até porque, a alimentação é abundante. O açaí é ricamente nutritivo e todos se alimentam dele em todas as refeições. Outros frutos e alimentos são abundantes na região, como mamão, abacaxi, manga, taperebá, coco, peixes, macaxeira etc.

 

Aprendemos também, sobre a história local. Aquelas ilhas foram colonizadas por ricos poderosos, conhecidos como coronéis, que se diziam proprietários e tinham trabalhadores que faziam a colheita do açaí de “suas propriedades”. O regime era de semiescravidão, pois nenhum direito trabalhista era respeitado.  Hoje, ainda existem famílias que são descendentes daqueles “coronéis”. Alguns são de origem portuguesa.

 

Com o passar do tempo, aqueles trabalhadores se organizaram em sindicatos e foram buscando seus direitos. As terras acabaram sendo divididas e hoje as pessoas trabalham em seus núcleos familiares, porém ainda existem trabalhadores que ganham a vida em parcerias. As terras não são documentadas legalmente. Apenas contratos “de gaveta”. Mas não existe uma violência generalizada por posse de terras.  Percebemos que existem grandes extensões de terras concentrada nas mãos de poucas pessoas, ainda. Donos de ilhas inteiras.  É bom que se saiba que, desde Almeirim (PA), até a foz do Amazonas propriamente dita, em todo o delta do Amazonas, existem aproximadamente 2.500 ilhas.

 

Aqui na nossa região do sudeste, não acompanhamos muito de perto esta situação de posse de terras. Acredito que conflitos acontecerão em breve, uma vez que o açaí está se tornando um negócio mito atrativo. Já perceberam que a floresta em pé é muito rentável.  Então devemos acompanhar os acontecimentos.

Conhecendo, ainda um pouco da história e geografia local, a ilha de Marajó possui 16 municípios. É uma região pobre e a saúde é precária. Havia lá médicos cubanos, mas com a expulsão deles pelo governo atual, a situação ficou difícil. Ficamos sabendo de mulheres que dão à luz durante a travessia, na tentativa de chegar à Sant’Ana ou Macapá. Nem sempre dá tempo.

 

Afuáh, por exemplo, é um município onde não existem automóveis, nem animais de tração. No núcleo urbano só se usa bicicleta. Então, mesmo deslocamento entre os municípios não é possível.

 

Conhecemos lá um projeto escolar, em que as proprietárias se esforçam por oferecer educação regular e preservação do meio ambiente. Necessitam de professores. Manifestaram-se por voluntários que se disponham a ministrar cursos intensivos, de curta duração, uma vez que os alunos se deslocam e se alojam na escola, se necessário.

 

A televisão é assistida por todas as pessoas. Mas este importante canal de comunicação foi também muito enganador no período eleitoral de 2018, quando Fake News e informações contraditórias chegavam, traziam nova proposta de alguém com novo jeito para controlar a corrupção e violência, inclusive incentivando o armamento privado. Agora já percebem que o Brasil todo foi enganado e eles também. Hoje já entendem o tamanho da enganação que foi a eleição do presidente atual, verdadeiro genocida e descompromissado com o povo brasileiro. Entendem que os benefícios de energia elétrica, postos médicos com os cubanos, organização sindical para uso racional e justo da terra foram benefícios que eles conquistaram em outros tempos de governo popular, que realmente tinha o pobre no orçamento.  Hoje já estão mais conscientes da difícil situação por que passa o Brasil.

 

Nosso trabalho também foi neste sentido, de fazermos uma análise de conjuntura, dialogando e tirando algumas dúvidas que pairavam na comunidade.

 

Por fim, em Macapá, almoçamos com os padres da congregação dos Pobres Servos da Divina Providencia, conhecidos do padre Ray, e já firmamos uma parceria na organização de cursos bíblicos, baseados em fé e política. Neste momento de pandemia, em uma forma virtual, mas assim que for possível, os cursos serão presenciais, aproveitando a viagem para visitarmos, também, outras paróquias com potencial bom de trabalho nesta linha.

 

                        Pe. Ray Crl e Luiz Carlos Catapan -  CBV e CNLB – Campinas/SP